Ibeji


 

 

 

 

 

 

 

 

LENDAS____________________________________________________________________

 

 

Os Ibeji são transformados numa estatueta

São filhos de Iemanjá os dois meninos gêmeos, os Ibejis.
Os Ibejis passavam o dia a brincar.
Eram crianças e brincavam com Logum Edé e brincavam com Euá.
Um dia, brincavam numa cachoeira e um deles se afogou.
O Ibeji que ficou começou a definhar, tão grande eram sua tristeza e solidão, melancólico e sem interesse pela vida.
Foi então a Orunmilá e suplicou que Orunmilá trouxesse o irmão de volta.
Que Orunmilá os reunisse de novo, para que brincassem juntos como antes.
Orunmilá não podia ou não queria fazer tal coisa, mas transformou a ambos em imagens de madeira e ordenou que ficassem juntos para sempre.
Nunca mais cresceriam, não se separariam.
São dois gêmeos-meninos brincando eternamente, são crianças.

 

(Mitologia dos Orixás,2001,pp.369)

 


Os Ibeji nascem como abicus mandados pelos macacos


Abicus nascem para morrer e nascer de novo e morrer
____ esse é o jogo deles.
Era uma vez um fazendeiro que vivia caçando macacos,
pois os macacos eram uma praga para o fazendeiro,
devorando toda a sua lavoura.
O fazendeiro e seus filhos vigiavam a plantação
e mesmo com uso de paus, pedras e flechas
não continham o ataque dos macacos.
O fazendeiro perseguia os macacos por toda parte,
mas eles continuavam sua investida às safras.
Eles criaram mil artimanhas para enganar o fazendeiro.
Nessa disputa, muitos macacos foram mortos
mas os sobreviventes persistiam.
Uma das esposas do fazendeiro ficou grávida.
Veio então um vidente para adverti-lo.
Ele disse que aquela matança de macacos era perigosa,
pois os macacos eram sábios e tinham poderes.
Disse que eles gerariam uma criança abicu,
aquela que nasce para morrer cedo.
Assim, logo depois do nascimento a criança morreria
e isso tornaria a acontecer de novo,
num nascer para morrer sem fim,
atormentando o fazendeiro até o último de seus dias.
O adivinho aconselhou o fazendeiro
a deixar os macacos comerem em paz.
O fazendeiro ouviu mas não se convenceu
e continuou vigiando seus campos
e caçando macacos na mata.
Os macacos decidiram mandar dois abicus para o fazendeiro.
Dois macacos transformaram-se então em abicus
e entraram no ventre da esposa grávida do fazendeiro.
Lá eles ficaram até a hora de nascer como gêmeos.
Eles foram os primeiros Ibejis a nascer entre os iorubás.
Foram os primeiros gêmeos.
Os Ibejis chamaram muito a atenção de todos.
Uns diziam que eram uma graça, outros, mau presságio.
Mas os Ibejis não permaneceram muito tempo vivos,
logo voltando para junto dos que ainda não nasceram,
pois eles eram abicus.
O tempo passou e eles voltaram
a nascer e morrer sucessivamente.
O fazendeiro estava desesperado com tamanha desgraça
e foi consultar um adivinho de um lugar distante
para saber a razão daquelas mortes.
O adivinho jogou os búzios
e explicou o que estava acontecendo.
Também advertiu o fazendeiro
que parasse de perseguir os macacos,
deixando-os comer em seus campos.
O fazendeiro voltou para casa
e não mais perseguiu os macacos.
Sua esposa deu à luz outros Ibejis e eles não morreram.
Mas o fazendeiro não tinha certeza ainda
se as coisas tinham mudado mesmo
e então voltou ao adivinho.
O adivinho jogou os búzios e disse
que dessa vez as crianças não morreriam e tornariam a nascer
como ocorreria antes.
Disse ainda que os Ibejis não são pessoas normais.
Eles têm grandes poderes para gratificar e punir os humanos.
Que recebessem tudo o que pedissem
para que seus familiares tivessem vida boa.
Quando o fazendeiro voltou para casa
contou para sua esposa tudo o que tinha aprendido.
E assim aconteceu e a família do fazendeiro prosperou.

 

(Mitologia dos Orixás,2001,pp.373)

 

 

Os Gêmeos que fizeram a Morte Dançar


Na velha aldeia de Ifá tudo transcorria normalmente. Todos faziam seu trabalho, as lavouras davam seus bons frutos, os animais procriavam, crianças nasciam fortes e saudáveis. Mas um dia a Morte resolveu concentrar ali sua colheita. Aí tudo começou a dar errado. As lavouras ficaram inférteis, as fontes e correntes de água secaram, o gado e tudo o que era bicho de criação definharam. Já não havia o que comer e beber. No desespero da difícil sobrevivência, as pessoas se agrediam umas às outras,ninguém se entendia, tudo virava uma guerra. As pessoas começaram a morrer aos montes.

Instalada ali no povoado, a Morte vivia rondando todos, especialmente as pessoas fracas, velhas e doentes. A Morte roubava essas pessoas e as levava para o outro mundo, longe da família e dos amigos. A Morte tirava a vida delas. Na aldeia morria-se de todas as causas possíveis:de doença, de velhice, e até mesmo ao nascer. Morria-se afogado, envenenado, enfeitiçado. Morria-se por causa de acidentes,maus-tratos e violência. Morria-se de fome, principalmente de fome. Mas também de tristeza, de saudadee até de amor. A Morte estava fazendo o seu grande banquete.

Havia luto em todas as casas. Todas as famílias choravam seus mortos.

O rei mandou muitos emissários falar com a malvada, mas a Morte sempre respondia que não fazia acordos. Que ia destruir um por um, sem piedade. Se alguém fosse forte o suficiente para enfrentá-la, que tentasse, mas seu fim seria ainda muito mais sofrido e penoso. Ela mandou dizer ao rei, por fim: “Para não dizerem que sou muito rabugenta, até concordo em dar uma chance à aldeia, basta que uma pessoa me obrigue a fazer o que não quero. Se alguém aqui me fizer agir contra a minha vontade, eu irei embora, mas só vou dar essa oportunidade a uma única pessoa. Não vou dar nem a duas, nem a três.” E foi-se embora dali, saboreando antecipadamente mais uma vitória.

Mas quem se atreveria a enfrentar a Morte? Quem, se os mais bravos guerreiros estavam mortos ou ardiam de febre em suas últimas horas de vida? Quem, se os mais astutos diplomatas havia muito tinham partido?

Foi então que dois meninos, os Ibejis,os irmãos gémeos Taió e Caiandê, que os fofoqueiros da cidade diziam ser filhos de Ifá, resolveram pregar uma peça na horrenda criatura. Antes que toda a aldeia fosse completamente dizimada, eles resolveram dar um basta aos ataques da Morte. Decidiram os Ibejis: “Vamos dar um chega-pra-lá nessa fedorenta figura.”

Os meninos pegaram o tambor mágico, que tocavam como ninguém, e saíram à procura da Morte. Não foi difícil achá-la numa estrada próxima, por onde ela perambulava em busca de mais vítimas. Sua presença era anunciada, do alto, por um bando de urubus que sobrevoavam a incrível peçonhenta. E o cheiro, ah, o cheiro! A fedentina que a Morte produzia à sua voltaf aria vomitar até uma estatueta de madeira.

Os meninos se esconderam numa moita e, tapando o nariz com um lenço, esperaram que ela se aproximasse. Não tardou e a Morte foi chegando. Os irmãos tremeram da cabeça aos pés. Ainda escondidos na moita, só de olhar para ela sentiram como os pêlos dos seus braços se arrepiavam. Mas podia-se dizer que a Morte estava feliz e contente. Ela estava até cantando! Pudera, tendo ceifado tantas vidase tendo tantas outras para extinguir.

Nesse momento, numa curva do caminho, enquanto um dos irmãos ficava escondido, o outro saltou do mato para a estrada, a poucos passos da Morte. Saltou com o seu tambor mágico, que tocava sem cessar, com muito ritmo. Tocava com toda a sua arte, todo o seu vigor. Tocava com determinação e alegria. Tocava bem como nunca tinha tocado antes. A Morte se encantou com o ritmo do menino. Com seu passo trôpego, ensaiou um dança sem graça. E lá foi ela, alegre como ninguém, dançando atrás do menino e de seu tambor.

O espectáculo era grotesco, a dança da Morte era, no mínimo, patética. Nem vou contar como foi a cena: cada um que imagine por conta própria. E é bem fácil imaginar.

Bem; lá ia o menino tocador e atrás ia a Morte. Passou-se uma hora, passou-se outra e mais outra. O menino não fazia nenhuma pausa e a Morte começou a se cansar. O sol já ia alto, os dois seguiam pela estrada afora, e o tambor sem parar, tá tá tatá tá tá tatá.

O dia deu lugar à noite e o tambor sem parar, tá tá tatá tá tá tatá.

E assim ia a coisa, madrugada adentro. O menino tocava, a Morte dançava. O menino ia na frente, sempre ligeiro e folgazão. A Morte seguia atrás, exausta, não aguentando mais.“Pára de tocar, menino, vamos descansar um pouco”, ela disse mais de uma vez. Ele não parava. “Pára essa porcaria de tambor, moleque,ou hás de me pagar com a vida”, ela ameaçou mais de uma vez. E ele não parava.“Pára que eu não aguento mais”, ela implorava. E ele não parava.

Taió e Caiandê eram gémeos idênticos. Ninguém sabia diferenciar um do outro, muito menos a Morte, que sempre foi cega e burra. Pois bem, o moleque que a Morte via tocando na estrada sem parar não era sempre o mesmo menino. Uma hora tocava Taió, enquanto Caiandê seguia por dentro do mato. Outra hora, quando Taió estava cansado, Caiandê, aproveitando um curva da estrada, substituía o irmão no tambor. Os gêmeos se revezavam e a música não parava nunca, não parava nem por um minuto sequer. Mas a Morte, coitada, não tinha substituto, não podia parar, nem descansar, nem um minutinho só. E o tambor sem cessar, tá tá tatá tá tá tatá.

Ela já nem respirava: “Pára, pára, menino maldito.” Mas o menino não parava. E assim foi, por dias e dias. Até os urubus já tinham deixado de acompanhar a Morte, preferindo pousar na copa de umas árvores secas. E o tambor sem parar, tá tá tatá tá tá tatá, uma hora Taió, outra hora Caiandê.

Por fim, não aguentando mais, a aparição gritou: “Pára com esse tambor maldito e eu faço tudo o que me pedires.”

O menino virou-se para trás e disse: “Pois então vá embora e deixe a minha aldeia em paz.”

“Aceito”, berrou a nauseabunda.

O menino parou de tocar e ouviu a Morte dizer: “Ah! que fracasso o meu. Ser vencida por um simples pirralho. ”Então ela virou-se e foi embora. Foi para longe do povoado, mas foi se lastimado: “Eu me odeio. Eu me odeio.”

Tocando e dançando, os gémeos voltaram para a aldeia para dar a boa notícia. Foram recebidos de braços abertos.Todos queriam abraçá-los e beijá-los. Em pouco tempo a vida normal voltou a reinar no povoado, a saúde retornou às casas e a alegria reapareceu nas ruas.

Muitas homenagens foram feitas aos valentes Ibejis. Mesmo depois de transcorrido certo tempo, sempre que Taió e Caiandê passavam na direção do mercado, havia alguém que comentava: “Olha os meninos gémeos que nos salvaram.”

E mais alguém complementava: “Que a lembrança de sua valentia nunca se apague de nossa memória.”

Ao que alguém acrescentava: “Mas eles não são a cara do Adivinho?”

(Extraído de Reginaldo Prandi, Ifá, o Adivinho. São Paulo, Companhia das Letrinhas, 2002)

 

 

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