Iniciação (Iburu)


 


Ìgbûrû - A Iniciação

A iniciação no Candomblé é um processo extremamente complexo e lento, além de ser um assunto que tem muitas restrições para ser discutido publicamente. Assim como há muitas variações associadas à própria palavra que identifica a Religião dos Òrìñà no Brasil - Candomblé, há também diversos tipos de iniciação. Estes tipos classificam-se, basicamente, em iniciação de adïñù e de não adïñù. Apenas para exemplificar, há dois conhecidos exemplos de iniciados que podem ser classificados como "não adïñù": os Îgán (homens) e as Ëkëdi (mulheres), também chamadas Ajòyè. Nestes dois casos, o(a) seguidor(a) é escolhido por um Òrìñà manifestado durante uma cerimônia de Candomblé e, após um dado período, é confirmado(a). Os iniciados "não adïñù", ao contrário dos adïñù, não podem iniciar outras pessoas e têm suas obrigações/tarefas muito bem delimitadas dentro do lado brasileiro da religião, que tem como filosofia o princípio de que não é possível dar a ninguém aquilo que não recebemos, ou seja, aquilo que não temos para dar.

O Prof. Prandi nos ajuda a esclarecer um pouco mais esta questão de iniciados "não adïñù", dizendo que um Îgán ou uma Ëkëdi também tem a opção de ser iniciado na condição de adïñù, permitindo que no futuro este Îgán ou Ëkëdi venha a desempenhar a função de Bàbálórìñà ou Ìyálórìñà, respectivamente. Ele ainda acrescenta que iniciação e confirmação são conceitos totalmente distintos, uma vez que a confirmação tem o objetivo de transmitir um Oyè a um iniciado. Este assunto será discutido mais detalhadamente nos últimos parágrafos.

Sem o objetivo de negar a importância daqueles que não estão classificados como adïñù, vamos dedicar este tópico à exploração da iniciação dos adïñù, uma vez que é este o único caminho que pode elevar um seguidor à condição de Ìyálórìñà ou Bàbálórìñà - o mais alto cargo dentro da hierarquia de uma casa de Candomblé. Tudo, exatamente tudo, dentro de uma casa de Candomblé deve ser feito com a autorização ou sob o comando da Ìyálórìñà ou Bàbálórìñà que, como já mencionado, foi iniciado(a) na condição de adïñù.

Outro fator que deve ser considerado é que, nos primórdios do Candomblé, um homem não tinha o direito de ser iniciado na condição de adïñù, somente como Îgán (nesta concepção, "não adïñù"). Esta regra até hoje é seguida naquela que é considerada a matriz das casas de Candomblé - a Casa Branca do Engenho Velho em Salvador. O tempo passou, a religião evoluiu e, por razões que fogem ao escopo deste artigo, os homens começaram a ser iniciados como adïñù e, para simplificar o texto, a partir deste ponto vamos deixar de usar o gênero das palavras, passando a utilizá-las apenas no masculino em português e/ou inglês e feminino nas poucas palavras Yorùbá que utilizaremos. Além disto, Alexandre Lima nos explicará o significado de algumas destas palavras ao final do texto. Até lá, vamos prosseguir com o assunto iniciação que, daqui em diante, fará referências somente às informações relevantes da iniciação dos adïñù.

Diversos são os caminhos (motivos) que levam uma pessoa a ser iniciada. É praticamente impossível relacionar todos caminhos, já que eles podem ser diretamente proporcionais ao número de pessoas iniciadas até hoje, mas há uma frase que a Ìyálórìñà Kasarandé não cansa de repetir e que muito bem reúne estes vários caminhos: "Ou você chega aos Òrìñà pelo amor, ou pela dor". Em outras palavras, há pessoas que têm que ser iniciadas, outras o são simplesmente porque assim quiseram e os Òrìñà concordaram, ou seja, estas últimas poderiam esperar o tempo que os Òrìñà julgassem necessário para serem iniciadas - o que poderia significar uma vida inteira, mas preferiram fazê-lo simplesmente porque amavam a religião. E se há um componente que é desejável para um seguidor ser iniciado, este ingrediente é o amor, o qual teórica e automaticamente conduz à dedicação.

O seguidor da Religião dos Òrìñà - iniciado ou não, adïñù ou não, pode e deve ser considerado como abòrìñà - palavra que deve ser dita com muito orgulho diante da sociedade por aqueles que seguem o Candomblé, tal qual fazem os seguidores de outras religiões quando se classificam quanto à religião que praticam. Após esta consideração, temos que classificar o abòrìñà quanto à sua condição dentro da religião - iniciado ou não iniciado. Até que ele seja iniciado, ele será classificado como abíyán.

O Bàbálórìñà Funjiala colabora, definindo abíyán como sendo uma classificação pré-iniciática, ou seja, para alçancar este primeiro degrau, o abòrìñà precisa ter sido submetido a, pelo menos, o ritual de börí. Definida esta classificação, então teremos os abòrìñà "não iniciados" e os abòrìñà que já passaram pelo böri, os abíyán.

Só para confirmar com outras palavras o que já dissemos anteriormente, o abíyán poderá ficar uma vida inteira nesta condição se assim os Òrìñà desejarem. Por outro lado, se os Òrìñà decidirem pela iniciação, durante um Candomblé (neste contexto, a cerimônia pública) este abíyán poderá "bolar no santo" - expressão que o Bàbálórìñà Funjiala define como sendo a primeira manifestação física do Òrìñà, a qual tomamos a liberdade de acrescentar à nossa definição inicial de "manifestação física que diz que o abòrìñà deve ser iniciado o mais breve possível".

Após a definitiva decisão sobre a iniciação, a Ìyálórìñà determinará através do jogo quando o processo terá início. Definida a data, que muito tem a ver com o Òrìñà do futuro iniciado, com as determinações do Òrìñà dono da casa e outras tantas implicações, o abíyàn apresenta-se, pela última vez nesta condição em toda sua existência, diante da Ìyálórìñà. A partir deste momento, ele deu início a um processo que durará SETE anos na esmagadora maioria das nações, familias e casas.

Ele vai ficar hospedado na casa de Candomblé por aproximadamente três semanas, tempo este dependente da casa, família e do próprio Òrìñà do iniciado. Inicialmente, por alguns dias (ou até horas) ele simplesmente descansará. Após este período, será dado inicio a um processo de limpeza física e espiritual, através de banhos rituais (àgbo) e sacrifícios (ëbö), que poderá demorar mais alguns dias.

Feita a "limpeza", ele será colocado no hunkö - quarto sagrado, de onde só sairá para as cerimônias em outros aposentos do ilé àñë ou locais externos sagrados (p.ex.: mar, cachoeira, mata, rio, etc.). A partir deste momento, o abòrìñà abandona a condição de abíyàn e passa a ser classificado como ìyàwó - noviça, literalmente, "a mais nova esposa".

Em seguida ele será submetido ao ritual do börí, o qual alimentará um dos mais importantes Òrìñà - Orí. Através da "alimentação" deste Òrìñà, o ritual tem o objetivo de pedir a sua autorização para "trabalhar" com a cabeça da ìyàwó, uma vez que não é possível realizar qualquer cerimônia pessoal relacionada aos Òrìñà sem antes pedir a permissão de Orí (veja mais informações sobre Orí na opção Òrìñà). Uma vez que Orí foi devidamente reverenciado, é hora de iniciar o tratamento do Òrìñà ancestral da ìyàwó.

Segundo a tradição Kétu, até 10 abòrìñà podem ser iniciados em conjunto, o que nunca significa que o serão simultaneamente, pois a iniciação está intimamente vinculada ao Òrìñà de cada pessoa e somente a Ìyálórìñà poderá realizar a cerimônia principal. Com base nestes fatos, entendemos que somente um abòrìñà poderá ser iniciado dentro de um mesmo espaço de tempo. Por outro lado, as cerimônias preliminares e posteriores à iniciação poderão ser feitas de forma simultânea e, por isto, o período é normalmente aproveitado para iniciar mais de uma pessoa. A este grupo de noviços damos o nome de barco, sendo que cada membro, por ordem sequencial (na maioria dos casos, de acordo com a ordem ritual dos Òrìñà ancestrais), recebe um dos seguintes nomes:

Dofono

Gamotin

Dofonitin

Vimo

Fomo

Vimotin

Fomotin

Domo

Gamo

Domotin

A iniciação é algo muito particular de cada Òrìñà, por isto cada ìyàwó tem seus próprios rituais de iniciação. Porém, o básico é feito em todos. Este "básico" consiste na raspagem da cabeça e na abertura de incisões (através de métodos compatíveis com cada Òrìñà) em diversas partes do corpo da ìyàwó. Estas incisões (gbýrý) têm o principal objetivo de inserir o àñë - um preparado que determinará a ancestralidade da ìyàwó. Entre estas incisões está a principal de todas - o Oñù, que é feita ao alto da cabeça e que o iniciado portará enquanto estiver no àiyé (espaço ocupado fisicamente pelos seres viventes).

Na tentativa de tornar um pouco mais clara a importância do Oñù, citamos Dra. Juana Elbein dos Santos e seu livro Os Nàgó e a Morte (ISBN 85-326-0923-6), onde diz: "... a Ìyálàlàñë transfere e planta o àñë na noviça por intermédio de um ciclo ritual que culmina quando, no centro da cabeça da ìyàwó, ela coloca e consagra o Oñù...". Mais adiante ela escreve "Falecida a olórìñà, qualquer que seja sua hierarquia, deverá proceder-se a retirar seu Oñù por meio do qual, precisamente, a individualização, o nascimento da adóñù foram possíveis. Um sacerdote altamente preparado manipulará sua cabeça de maneira que retire os cabelos do lugar onde o Oñù foi plantado...".

Durante esta importante fase da iniciação, tudo sempre é feito sob a tênue luz de vela (quando o Òrìñà da ìyàwó não exige outro tipo primitivo de iluminação), ao som de cantigas específicas para o momento e diante de olhares das poucas pessoas autorizadas pelo Òrìñà, seja ele da ìyàwó, da casa, da Ìyálórìñà e até mesmo do próprio participante.

Feito isto, será dado início aos sacrifícios animais necessários para o Òrìñà da ìyàwó. Ao contrário do que a grande maioria pensa, segundo a tradição Kétu, animais não são sacrificados sobre a ìyàwó, pois acredita-se que o calor do sofrimento causado pela morte do animal não deve nunca atingir o abòrìñà. Há métodos específicos e pessoas especialmente determinadas para que não seja estabelecido um elo entre o sofrimento físico do animal sacrificado e a pessoa diretamente envolvida no ritual, exceto no que diz respeito a alguns poucos animais.

Um a um, as ìyàwó são submetidas ao processo de iniciação, que pode durar horas que parecem nunca acabar, dependendo do tamanho do barco - grupo de iniciados.

Apesar de já serem chamados de ìyàwó, eles ainda terão uma dura fase pela frente. Com o mais básico comportamento sempre atrelado aos seus Òriñà ancestrais, eles ainda terão muitos dias de convivência com a ajíbïna que, além de ensiná-los como se comportarem diante de seus mais velhos, continuará ensinando as rezas, as danças, etc. Eles ainda serão apresentados por sete vezes àqueles da sua família que estiverem interessados em conhecê-los. Dependendo do Òrìñà, durante estas apresentações serão pintados com wàji (azul), òsún (vermelho) e ëfun (branco) demonstrando sua ascendência (Îyï) e também para que as àjý (entidades feiticeiras) não se aproveitem deles, não os persiga.

Finalizados os procedimentos internos de iniciação, é chegada a hora da cerimônia pública. Aliás, todos grandes rituais do Candomblé culminam em cerimônias públicas, que assumem o papel de confirmadoras do ocorrido, de preferência com a participação de pessoas de outras casas e até mesmo outras famílias. A presença de pessoas pertencentes a outras nações em uma saída de ìyàwó é considerada uma grande honra e, normalmente, terão peso imensurável na escolha da Ìyálórìñà para aquele que tirará o nome da ìyàwó (maiores informações mais adiante).

Dependendo da casa, a cerimônia pública será precedida por novos rituais que incluem novos sacrifícios. Há até mesmo casas/famílias que realizam o ritual/sacrifício finais poucos minutos antes da primeira apresentação pública. Mas, hoje em dia, devido à grande especulação, ou os ìyàwó saem cobertos por um tecido branco nesta primeira apresentação, ou já o fizeram na madrugada anterior. Queremos dizer que o ápice da iniciação - que consiste na apresentação do Oñù (objeto ritualístico altamente sagrado) em público, é atingido de uma forma mais discreta do que o era antigamente. Na atualidade, é mais difícil ver um Oñù em cerimônias públicas.

De qualquer maneira, o final desta fase inicial será uma cerimônia pública onde os ìyàwó mostrarão por três vezes que nasceram para uma nova vida, será o Öjï Orúkö Ìyàwó.

Na primeira vez, eles serão apresentados vestidos de branco, pintados de branco (ëfun) com o ìkódídë (pena ritualística, um dos símbolos da iniciação) amarrado na cabeça por palha da costa. Na frente deles estará a ajíbïna estendendo a ëní - esteira, para que eles "batam pawï" para os locais sagrados da casa e apresentem o dïbálû (Òrìñà masculinos) e o yìnká (Òrìñà femininos) para a Ìyálórìñà.

Na segunda vez, as roupas serão coloridas, assim como as pinturas que abusarão do vermelho (òsún) e azul (wáji), dependendo do Òrìñà, mostrando a sua ancestradidade através de traços bem definidos. Na verdade, desta vez, a apresentação é bem mais rápida.

Na terceira vez, as roupas já serão as características de cada Òrìñà, ou seja, eles estarão vestidos em belas roupas que revelam os atributos, lembram a história, de seus Òrìñà.

Na segunda saída, dependendo da casa, após os cumprimentos rituais, os ìyàwó serão expostos ao público na ordem hierárquica do barco e a Ìyálórìñà oferecerá cada um deles para que alguém de outra nação, casa, família (normalmente nesta ordem), peça para que o Òrìñà revele publicamente o nome Yorùbá que o iniciado recebeu.

Na terceira saída, os Òrìñà estarão preparados para comemorar os novos nascimentos, pois este é o objetivo da iniciação - nascer para dentro da religião, através das danças rituais. Dependendo do número de ìyàwó, os Òrìñà podem dançar até os raios do sol invadirem o barracão.

Muito bonito sem dúvida, mas engana-se quem pensa que a iniciação acabou. Esquecemo-nos de mencionar que o Kele - o colar sagrado, foi colocado no pescoço da ìyàwó durante o processo de iniciação. É importante notar que o termo "colar" é utilizado apenas para facilitar o entendimento, pois, apesar de ser colocado no pescoço, o Kele não pode ser removido, exceto através de ritual específico. Dependendo da casa, da família, o Kele deverá ser carregado por 12 semanas, lembrando que a ìyàwó deverá respeitá-lo evitando todos prazeres mundanos, tais como sexo, álcool, tabaco, etc., além de uma série de proibições - èwî, inerentes a esta fase primária da iniciação. Hoje em dia, na tentativa de tornar o Kele objeto de respeito máximo, muitas Ìyálórìñà não deixam seus ìyàwó entrarem para a vida social portando o colar sagrado - preferem tirá-lo do pescoço dos seus filhos antes que estes partam para a vida moderna que os aguarda lá fora. Mas isto não significa que eles estarão livres dos èwî ! Talvez eles sejam liberados para comer com talheres em um almoço de negócios, mas isto poderá ser o máximo permitdo, pois dormir no chão sobre a ëní e as rezas antes das refeições que não sejam exigidas pela vida profissional continuarão sendo algumas poucas das suas muitas obrigações para com os Òrìñà. Alguns èwî, dependendo do Òrìñà, da casa, da família, etc., não estarão limitados somente ao período do Kele, ou seja, deverão ser respeitados por toda vida do iniciado.

Como ensinado pela ajíbïna, enquanto eles forem ìyàwó, eles jamais poderão sentar no mesmo nível que os irmãos mais velhos, nem olhar diretamente em seus olhos. É a hierarquia intrínseca ao Candomblé (ou seria à cultura Yorúbà ?) se mostrando: um irmão mais novo não deve nunca ficar acima (fisicamente) de um irmão mais velho. Ao contrário das demais culturas, o "olhos nos olhos" só funciona para pessoas do mesmo nível hierárquico, os que estão abaixo devem sempre olhar para o chão. Esta educação inicial mostrará quem é a pessoa para o resto de sua vida dentro da religião.

Passado o período do Kele, o iyàwó, teoricamente, entra em seu ritmo social normal até o primeiro ano, quando então cumprirá com novas obrigações chamadas de ödún kíni. Depois precisará cumprir com suas obrigações aos três anos (ödún kýtà). Há casas onde também são cumpridas obrigações no quinto ano. Finalmente, vem as obrigações que são a confirmação final da iniciação e que são feitas aos sete anos (ödún kéje), quando então a ìyàwó se tornará um Ûgbïn (mais velho) através de uma cerimônia pública, onde poderá receber o conjunto de simbolos da maioridade, comumente chamado de Deká. A partir daí, o Ûgbïn, ou Ûgbïnmi, como é normalmente chamado, estará apto a abrir sua própria casa, caso este seja seu caminho (definido no momento da sua concepção e revelado pelo jogo de búzios), dando origem à sua própria família com base nos ensinamentos que adquiriu durante os sete anos de iniciação, de aprendizado inicial. Durante o referido período, é esperado que ele tenha sido submetido a, e estado presente em, rituais suficientes para que esteja habilitado a, pelo menos, interpretar corretamente as caídas dos búzios, pois muito do que praticará de agora em diante, aprenderá à medida que os Òrìñà digam que ele precisa iniciar os abòrìñà que cruzarem seu caminho.

Aqueles que não têm o "caminho" para assumirem a função de Ìyálórìñà, de abrirem suas próprias casas, continuarão atuando dentro daquela onde foram iniciados, podendo receber nesta cargos e/ou títulos (Oyè) que determinarão os seus papéis junto à sua família (Ìdílé Òrìñà). Nesta condição, além das classificações já expostas, estes abòrìñà passarão também a ser classificados como Oloyè.

Conforme define o Prof. Prandi, "receber um Oyè geralmente implica sentar na cadeira (cadeira, trono, representava na África que o indivíduo tinha alta posição social, assim como usar o eru-espanta mosca, o guarda-sol e outros símbolos de prestígio e poder). A confirmação é o ato em que o pai-de-santo ou Òrìñà senta o Oloyè na cadeira, para indicar que ele agora tem status alto, posição elevada, etc. naquele Ëgbý (comunidade)". Ele adiciona ainda que, ao abrir sua própria casa, a Ìyálórìñà não perde o vínculo com a casa onde foi iniciada, podendo, inclusive, manter um Oyè recebido previamente naquela casa, ou até ser confirmada para um Oyè naquela ou em outra casa após ter constituído sua própria família.

 

 

 

    O ritual de iniciação no Candomblé, a feitura no santo, representa um renascimento, tudo será novo na vida do yàwó, ele receberá inclusive um nome pelo qual passará a ser chamado dentro da comunidade do Candomblé.

    A feitura tem por início no recolhimento. São 21 (vinte e um) dias de reclusão, e neste prazo são realizados banhos, boris, oferendas, ebós, todo o aprendizado começa, as rezas, as dança, as cantigas...

    E feito a raspagem dos cabelos (orô) e o abiã recebe o oxu (representa o canal de comunicação entre o iniciado e seu orixá) o kelê, os delogun, o mokan, o xaorô, os ikan, o ikodidé. O filho de santo terá que passar agora por um ritual, onde terá seu corpo pintado com giz, denominado efun. Ele deverá passar por este ritual de pintura por 7 (sete) dias seguidos.

    O abiã terá agora que assentar seu Orixá e ofertar-lhe sacrifícios de animais de acordo com as características de cada um. Feito isso ele passa a se chamar  yàwó.

    A festa ritualística que marca o termino deste período é denominado Saída de Yàwó, neste momento ele será apresentado a comunidade. Ele será acompanhado por uma autoridade a frente de todos para que lhe sejam rendidas homenagens.

    Deitado sobre uma esteira, ele saudará com adobá e paó, que são palmas compassadas que serão dadas a cada reverência feita pelo yàwó e acompanhada por todos presentes, como demonstração de que a partir daquele momento ele nunca mais estará sozinho em sua caminhada. Primeiramente saudará o mundo, neste momento a localização da esteira é na porta principal da casa. No seu interior, ele saudará a comunidade e por último frente aos atabaques que representa as autoridades presentes. Neste primeiro momento o Orixá somente poderá dar o jicá. Só após a queda do kelê o Orixá poderá dar seu ilá.

    O momento mais aguardado do cerimonial é o orukó. Neste momento o Orixá dirá o nome de iniciação de seu filho perante todos e também é neste momento que abre-se sua idade cronológica  dentro de sua vida no santo.

    Após a saída e depois dos 21 (vinte e um) dias de recolhimento o yàwó permanecerá de resguardo até a queda de kelê fora do barracão por um período de 3 (três) meses, neste período ele não poderá utilizar talheres para comer, deve continuar a se sentar no chão sobre a esteira durante as refeições, está proibido de utilizar outra cor de roupa que não o branco da cabeça aos pés, não poderá fazer uso de bebidas alcoólicas, cigarro. .. E nem tão pouco sair à noite. E até que se complete 1 (um) ano seus preceitos continuarão.

    Até que o yàwó complete a maior idade de santo, terá que continuar dia a dia seu aprendizado e reforçar seus votos por meio das obrigações.

 

    Trecho Livro A Panela do Segredo, 283 - Pai Cido de Osun Eyin:

} Vale dizer que o transe não é imprescindível para que uma pessoa seja iniciada como adoxu, pois, independentemente de se manifestar o Orixá está em cada um de seus filhos. Isso é muito importante, porque só os adoxu podem assumir determinadas funções sacerdotais, como os cargos de ialorixá ou babalorixá. Sendo assim, uma pessoa que tem em seu odu a missão sacerdotal, incorporando ou não o Orixá, deve ser iniciada como adoxu e nunca como ogãn ou equedi, que já são ijoyé natos e jamais poderão entrar em transe de orixá ~  

 

    Trecho Livro A Panela do Segredo, 284 - Pai Cido de Osun Eyin:

}Algumas pessoas não precisam ser raspadas ao se iniciarem. Esse é o caso principalmente das crianças que nasceram fadas à morte, mas que venceram o trágico destino (abiku). Existe uma graduação delas que considera as especificações de seu nascimento. Por exemplo: as crianças que nasceram pelos pés, com o cordão umbilical em volta do pescoço, depois de vários abortos, que foram abandonadas ao nascer ou cujas mães morreram ao dar à luz ____ neste último caso, se o abiku for indevidamente raspado poderá levar o seu pai-de-santo (ou seja, aquele que lhe deu a vida na religião)  à morte. Evidente que todo natimorto é abiku ~

 

 


 

A iniciação no Candomblé é um processo extremamente complexo e lento, além de ser um assunto com muitas restrições para ser discutido publicamente. Portanto, em nossa Página dessa semana vamos nos ater às mais básicas informações, deixando bastante claro que o descrito aqui não é uma regra geral, pois na maioria dos casos, cada nação (segmento da religião), cada família (grupo de pessoas ligadas através de um mesmo elo ancestral) e cada casa de Candomblé (grupo pertencente especificamente a uma casa) tem rituais específicos.

Os Candomblés se diversificaram desde 1830, a medida que a religião dos nagôs se firmava, primeiro entre os escravos e por fim, no meio do povo. Hoje há quatro tipos de Candomblé ou Candomblé de Quatro Nações: Kêtu (povo nagô), Jêje (povo nagô, mas obedientes a uma outra cultura), Angola-congo (povo bantu) e de caboclo (cultuam mais os caboclos, mistura-se com a Umbanda). A iniciação é algo muito particular de cada Orixá, por isto cada ìyàwó tem seus próprios rituais. Porém, o básico é feito em todos. Este "básico" consiste na raspagem da cabeça e na abertura de incisões (através de métodos compatíveis com cada Orixá) em diversas partes do corpo da ìyàwó. Estas incisões (gbýrý) têm o principal objetivo de inserir o àñë - um preparado que determinará a ancestralidade da ìyàwó. Entre estas incisões está a principal de todas - o Oñù, que é feita ao alto da cabeça e que o iniciado portará enquanto estiver no àiyé (espaço ocupado fisicamente pelos seres viventes). Durante esta fase da iniciação, tudo é feito sob a luz de vela (quando o Orixá da ìyàwó não exige outro tipo primitivo de iluminação), ao som de cantigas específicas para o momento e diante das poucas pessoas autorizadas pelo Orixá. Feito isto, será dado início aos sacrifícios animais pedidos pelo Orixá da ìyàwó. Ao contrário do que se pensa, segundo a tradição Kétu, animais não são sacrificados sobre a ìyàwó, pois acredita-se que o calor do sofrimento causado pela morte do animal não deve atingir o iniciado. Há métodos específicos e pessoas especialmente determinadas para que não seja estabelecido um elo entre o sofrimento físico do animal sacrificado e a pessoa diretamente envolvida no ritual.

Apesar de já serem chamados de ìyàwó, ainda têm uma dura fase de aprendizado pela frente: danças, rezas, comportamento diante dos mais velhos, tudo sempre atrelado ao seu Orixá. Eles ainda serão apresentados por sete vezes àqueles da sua família que estiverem interessados em conhecê-los. Dependendo do Orixá, durante estas apresentações serão pintados com wàji (azul), òsún (vermelho) e ëfun (branco) demonstrando sua ascendência (Îyï) e também para que as àjý (entidades feiticeiras) não se aproveitem deles, não os persiga.

Finalizados os procedimentos internos de iniciação, é chegada a hora da cerimônia pública. Aliás, todos grandes rituais do Candomblé culminam em cerimônias públicas, que assumem o papel de confirmadoras do ocorrido, de preferência com a participação de pessoas de outras casas e até mesmo outras famílias. A presença de pessoas pertencentes a outras nações em uma saída de ìyàwó é considerada uma grande honra. Dependendo da casa, a cerimônia pública será precedida por novos rituais que incluem novos sacrifícios. Há até mesmo casas/famílias que realizam o ritual/sacrifício finais pouco antes da primeira apresentação pública.

Mas, hoje em dia, devido à grande especulação, ou os ìyàwó saem cobertos por um tecido branco nesta primeira apresentação, ou já o fizeram na madrugada anterior. O ápice da iniciação - que consiste na apresentação do Oñù (objeto ritualístico altamente sagrado) em público, é atingido de uma forma mais discreta do que o era antigamente. Na atualidade, é mais difícil ver um Oñù em cerimônias públicas. De qualquer maneira, o final desta fase inicial será uma cerimônia pública onde os ìyàwó mostrarão por três vezes que nasceram para uma nova vida.

Passado o período do "Kele" - o colar sagrado que foi colocado no pescoço da ìyàwó durante o processo de iniciação e que não pode ser removido, exceto através de ritual específico - e que, dependendo da casa ou família, deverá ser carregado por 12 semanas, devendo ser respeitado evitando-se todos os prazeres mundanos, o iyàwó, teoricamente, entra em seu ritmo social normal até o primeiro ano, quando então cumprirá com novas obrigações chamadas de ödún kíni. Hoje em dia, na tentativa de tornar o Kele objeto de respeito máximo, muitas casas não deixam seus ìyàwó entrarem para a vida social portando o colar sagrado - preferem tirá-lo do pescoço dos seus filhos antes que estes partam para a vida moderna que os aguarda lá fora.

Depois precisará cumprir com suas obrigações aos três anos (ödún kýtà). Há casas onde também são cumpridas obrigações no quinto ano. Finalmente, vem as obrigações que são a confirmação final da iniciação e que são feitas aos sete anos (ödún kéje), quando então a ìyàwó se tornará um Ûgbïn (mais velho) através de uma cerimônia pública, onde poderá receber o conjunto de simbolos da maioridade, comumente chamado de Deká. A partir daí, o Ûgbïn, ou Ûgbïnmi, como é normalmente chamado, estará pronto para abrir sua própria casa, caso este seja seu caminho (definido no momento da sua concepção e revelado pelo jogo de búzios), dando origem à sua própria família com base nos ensinamentos que adquiriu durante os sete anos da iniciação do aprendizado inicial.

Aqueles que não têm o "caminho" para assumirem a função de abrirem suas próprias casas, continuarão atuando dentro daquela onde foram iniciados, podendo receber cargos e/ou títulos (Oyè) que determinarão os seus papéis junto à sua família (Ìdílé Òrìñà). Nesta condição, além das classificações já expostas, passarão também a ser classificados como Oloyè. Receber um Oyè geralmente implica sentar na cadeira (cadeira, trono indicava na África que o indivíduo tinha alta posição social, assim como usar o eru-espanta mosca, o guarda-sol e outros símbolos de prestígio e poder).

 

 

 

REZAS______________________________________________________________________

 

 

Gbàdúrà ti Bàbáláàse

Este gbàdúrà pode ser mudado para Ìyáláàse substituindo onde estiver Bàbáláàse

 
Bàbáláàse ní yè wa O Babalaxé deu-nos a vida
Sojú mòn omon Bàbáláàse a e sìn Lance os olhos do conhecimento sobre os filhos, Babalaxé e nós vos serviremos
Fí adósùu mi ní yè wa Ele tornou-os adôxu e com o oxú deu-nos a vida
Sojú mòn omon Bàbáláàse a e sìn Lance os olhos do conhecimento sobre os filhos, Babalaxé e nós o serviremos
Fí ìkóòdíde mi ní yè wa Pôs em nós o ikodidé e deu-nos a vida
Sojú mòn omon Bàbáláàse a e sìn Lance os olhos do conhecimento sobre os filhos, Babalaxé e nós o serviremos

 


 

Gbàdúrá Ìyàwó

 

Èmi omo Òrìsà, ki tèmi e mòn

Eu sou filho de Orixá, que eu seja reconhecido por vós

Èmi omo Òrìsà, ki tèmi e mòn

Eu sou filho de Orixá, que eu seja reconhecido por vós

Ìyàwó ki gbé e ó, ki tèmi e mòn

Yaô que vim morar convosco, que eu seja reconhecido por vós

Ìyàwó ki gbé e ó, ki tèmi e mòn

Yaô que vim morar convosco, que eu seja reconhecido por vós

Ìyàwó ki gbé e ó, ki gbé e ó, ki gbé e ó

Yaô que vim morar convosco, que vim morar convosco, morar convosco

Ki gbé e ó, ki gbé e ó, Òrìsà t'ilé wa

Que vim morar convosco, que vim morar convosco, Orixá da nossa casa

Ilé 'ngbà àwa gbé, Òrìsà t'ilé wa

A casa aceita nós morarmos, Orixá da nossa casa

Ilé 'ngbà àwa gbé

Nós aceitamos morar


Omo ní ire ó 'ngbé a ilé

O filho está feliz em morar em nossa casa

Ó ngbé a ilé, ire ó

Ele mora em nossa casa, ele está feliz

Omo ní ire ó 'ngbé a ilé

O filho está feliz em morar em nossa casa

Ó ngbé a ilé, ire ó

Ele mora em nossa casa, ele está feliz

Séré ebílé wa ó a 'ndé

Tornou feliz a nossa família à sua chegada

Omo l'ayò ire ó 'ndé wa

O filho contente e feliz em chegar até nós

L'ayò ire ó

Ele está contente e feliz


Omo ní ará ilé wa ó

O filho é membro da nossa casa (parente)

Òun dé ará ilé wa ó

Ele chegou e é membro da nossa casa

Omo ní ará ilé wa ó

O filho é parente da nossa família (casa)

Òun dé ará ilé wa ó

ele chegou e é parente da nossa casa